Há algum tempo li um artigo na Revista Piauí em que Mario Sergio Conti falava da decisão de Delfim Netto de doar sua biblioteca para a USP. A matéria, entitulada Para a alma mater, foi publicada na Piauí 55 [ aqui ]. Conti descreve em poucos parágrafos o relacionamento do economista com os livros: “É o meu maior patrimônio”. A matéria fala ainda do gesto de autruísmo que é, também, de gratidão, com a instituição responsável por formação: “O nosso Departamento de Economia é discreto, não faz barulho, mas está entre os melhores do Brasil”. Uma das coisas que mais me chamou a atenção foi o tamanho da biblioteca construída ao longo de décadas:

‘Delfim Netto comprou seu primeiro livro na Civilização Brasileira, no Centro de São Paulo, quando era adolescente. Sete décadas depois, ele tem 250 mil livros. Eles estão acomodados num galpão com vários salões no sítio do ex-ministro em Cotia, nas imediações de São Paulo. Quer dizer, ele supõe que sejam 250 mil. “Usando como critério o número de artigos e ensaios, que são o usual no meu campo, o da economia, acho que a biblioteca pode ter uns 500 mil itens”, disse recentemente.’

Eu leio isso e fico apreensivo. Afinal, não dou conta nem dos poucos títulos que tenho aqui. Então hoje vi uma mensagem do Uriá Fassina no Twitter:

Antibilioteca é um termo cunhado por Nassim Nicholas Taleb em seu livro A Lógica do Cisne Negro. Taleb tomou como base o raciocínio do Umberto Eco para aquilo que aflige todos os colecionadores de livros: os não lidos! Isso pode acontecer com um Umberto Eco, com um Delfim Netto ou com gente como eu e você, que ocupa, com orgulho, umas poucas prateleiras.

“O escritor Umberto Eco pertence a pequena classe de acadêmicos que são enciclopédicos, críticos e perspicazes. Ele é o dono de uma grande biblioteca pessoal (contendo trinta mil livros), e separa os visitantes em duas categorias: aqueles que reagem com “Uau! Signore professore dottore Eco, que grande biblioteca você tem! Quantos desses livros você já leu?” e os outros – uma minoria muito pequena – que entende que uma biblioteca pessoal não serve como uma inflamadora do ego, mas sim como uma ferramenta de pesquisa.

Livros lidos são muito menos valiosos que os não-lidos. A biblioteca deve conter tanto das coisas que você não sabe quanto seus recursos financeiros, taxas hipotecárias e o atualmente restrito mercado de imóveis lhe permitam colocar nela. Você acumulará mais conhecimento e mais livros à medida em que for envelhecendo, e o número crescente de livros não-lidos nas prateleiras olhará para você ameaçadoramente. Na verdade, quanto mais você souber, maiores serão as pilhas de livros não-lidos. Vamos chamar esta coleção de livros não-lidos de antibiblioteca.

Nós tendemos a tratar o conhecimento como uma propriedade pessoal que deve ser protegida e defendida. Ele é um ornamento que nos permite subir na hierarquia social. Assim, essa tendência a ofender a sensibilidade da biblioteca de Eco concentrando-se no conhecido é uma parcialidade humana que se estende às nossas operações mentais.”

Trecho de Nassim Nicholas Taleb publicado originalmente em A lógica do cisne negro e retirado da Revista ExtraLibris [ aqui ].

A lógica do Cisne Negro – Nassim Nicholas Taleb

 

Pois é. Depois dessa tenho a ousadia de me incluir na mesma categoria em que estão Delfim Netto e Umberto Eco: a dos compulsivos que não conseguem dar conta da própria biblioteca. E ao mesmo tempo posso deixar de lado essa preocupação com a necessidade de aprender. Afinal, parece-me que boa parte do nosso conhecimento baseia-se no aprendizado sob demanda. Mais ou menos como acontece com a Matrix:

 

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